A Verdade do Evangelho
(Segundo a perspectiva de Luís Alturas)
Capitulo V
Betabara, 11 de Abril do ano 30 d.C.
João permanecia incrédulo a contemplar aquilo que lhe parecia ser um grandioso milagre. Mais uma “obra do Senhor”. Sabia-o com desígnios insondáveis. E este era, certamente, um deles. Como era possível que o seu amo ainda respirasse o mesmo ar daqueles que habitavam o reino dos vivos? – Pensava. Afinal de contas, tinha-lo visto morto. Tinha feito questão de o acompanhar no seu terrível calvário. Tinha visto o seu corpo, inerte e já sem vida, a ser cuidadosamente embrulhado num lençol de linho branco e a ser transportado cuidadosamente por Maria, Madalena e outras mulheres para a gruta dos mortos. A visão do seu mentor que ali, agora, jazia vivo fazia-o lembrar-se de Lázaro de Betânia, que estivera também morto e que graças ao milagre do Senhor havia voltado à vida.
Recordava-se como lhe tinha chegado ao conhecimento tão surpreendente notícia. Através de Tomé, quando naquela noite de Domingo aparecera em sua casa, à hora da ceia, sem que fosse esperado:
- O Senhor está vivo..! – Sussurrara-lhe ao ouvido, de uma forma discreta, certificando-se que mais ninguém naquela mesa ouviria tamanha revelação.
Ao ouvir tão assombrosa confissão, João quase se engasgara. Não queria acreditar no que acabava de ouvir. Largando, de súbito, a colher que detinha na sua mão direita e que transportava o caldo de galinha, a meio caminho entre o prato e a boca, levantou-se e agarrando firmemente pelo braço de Tomé arrastou-o até o terreiro fronteiriço à casa. Impossível…
Na mesa, que abandonara de forma abrupta, a sua mulher e o seu filho haviam ficado assustados com tão estranho e inédito comportamento, que não era de forma alguma apanágio da educação que João sempre lhes exigira durante as refeições. A mesa é um local sagrado...
Já lá fora, e certificando-se que já não havia ninguém por perto, João e Tomé, retomariam tão surpreendente e reveladora conversa.
- Que dissestes, meu bom Tomé?! Estais seguro que não blasfemas… – Mas, João já não concluiu pois, prevendo aquilo que João lhe iria dizer, Tomé logo continuou.
- Não… Claro que não, João. É a mais pura das verdades. O Senhor não morreu... Foi Maria que mo disse e pediu para que vos desse notícia!
- A sério?! Mas como…?! – O espírito de João continuava incrédulo. - E onde está o senhor, se dizeis que não morreu, meu bom homem…?!
- Neste momento estará em caravana pelo deserto. Dirige-se para Betabara, a fim de não ser encontrado, com sua mãe, mulher e filhos numa cáfila alumiada por uma lâmpada de azeite acesa de 2 em 2 horas.
- Betabara... tendes a certeza?
- Sim...
- Aleluia… Aleluia, meu Deus! – E dito isto, João abraçou Tomé, informando-o que iria partir imediatamente em busca do Senhor.
Aproveitando aquilo que lhe parecia um breve momento de consciência daquele homem que jazia moribundo no seu leito, João não se conteve e abraçou-o.
- Bendito sejas, Senhor! – Exclamou. – Como vos sentis?
Abrindo com esforço os seus ainda muito inchados e negros olhos, e esboçando um ténue sorriso acompanhado de uma interjeição dolorosa, aquela figura que em tempos arrastara consigo a multidão, espalhando a “palavra”, detinha-se agora queda e muda. Depois de um muito débil aceno de cabeça, voltou-se para o lado, fechou os olhos e adormeceu.

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