Todos os desportos tem uma linguagem muito própria – gíria – mas aquela que é aplicada ao futebol (português - pois dos outros não me interessa nem me diz respeito) “bate” todas as outras, pela riqueza, inadequação e incoerência dos termos aplicados – o futebolês. Essa linguagem, tão sui generis, utiliza uma panóplia de expressões que nada têm a ver com o jogo, em si, mas com outras áreas de interesse tão diversas como: a guerra, a estiva, a anatomia, a gastronomia, a tauromaquia, a engenharia, a advocacia e a economia!!!
Guerra
Veja-se o exemplo do termo aplicado àquele que, estando mais avançado dentro do campo, tem a função de marcar golos – “ponta-de-lança”. Esta designação deve-se ao facto do jogador (supostamente) funcionar como uma seta, apontada à baliza adversária. Até aqui, tudo bem! Percebo! Mas o problema coloca-se quando assistimos a um jogo de futebol e temos uma dificuldade enorme em perceber quem são os ponta-de-lança, tal a inoperância dos mesmos. Quando não se vislumbram quaisquer setas em campo a não ser aquelas que aparecem nos ecrãs gigantes (precisamente no intervalo do jogo) a anunciar uma qualquer companhia de seguros, operador móvel ou instituição bancária! Para além do mais, se para uma determinada posição se utiliza uma analogia com uma determinada arma de guerra porque não aplica-la às outras posições?! Assim, podíamos ter numa equipa, para além do “ponta-de-lança”, o “fio-de-espada”, o “porrete” e o “cabo-de-machado”, entre outras…
Estiva
E o que dizer da expressão, “carregador de piano”. Dessa posição tão sugestiva (ou, não) no terreno de jogo?! Daquele que tem a função de “carregar” com toda a equipa “às suas costas”. Coitado (estou a ironizar) do jogador que tem de o fazer; devia ser o mais bem remunerado, tal é o fardo (ou melhor, a cruz) que tem de carregar (continuo a ironizar). Eu diria que a este se adequaria melhor a designação de “estivador”, pois nem só de “pianos” são constituídas as equipas (mas, enfim…). E, na maior parte das vezes não se vislumbra quem faz essa posição (mas percebe-se porquê – quando os outros não correm o “piano” torna-se ainda mais pesado).
Anatomia
Falhar um golo “à boca da baliza” é o termo que se aplica sempre que um jogador falha a introdução da bola dentro da baliza adversária (objectivo, derradeiro deste jogo – o golo), encontrando-se muito próximo dela (em cima, mesmo). E, são tantos os que o conseguem fazer!!! Às vezes parece que essa “boca” está tão recheada de dentes que a bola teima em não entrar. Pena é, também, que ela (a “boca da baliza”) não tenha vontade própria para que pudesse deitar a língua de fora, sempre que um jogador falhasse clamorosamente um golo, sem quaisquer dentes a atrapalha-lo!!!
Gastronomia
O futebolês utiliza frequentemente analogias gastronómicas para caracterizar alguns dos aspectos do jogo. Desde logo, e referindo-se à zona do campo onde o jogo é jogado, temos o “miolo” – quando o jogo se faz pela zona central. Este termo lembra-me...pão. Assim, quanto a mim, e para que houvesse coerência na aplicação de tal designação, devia ser usado o termo “côdea” para caracterizar todo o outro espaço, que é utilizado habitualmente pelos jogadores que jogam junto às linhas. É, ou não é assim?!
Quando o jogo se desenrola de forma maçadora, não passando da “cepa torta” (ou seja, sem golos), com passes curtos e inconsequentes entre os jogadores, não se vislumbrando a presença de quaisquer setas no terreno de jogo, diz-se “mastigado”. Mastigado?! Bem me parecia. Então será por isso que os jogadores passam a maior parte do tempo a cuspir para chão, de tão mal que sabe aquilo que mastigam!!!
E o que dizer do “frango” – nome atribuído ao guarda-redes quando o mesmo falha clamorosamente uma defesa que se adivinhava fácil (para nós, claro – que vemos o jogo refastelados no sofá). Agora, pergunto: porquê “frango” e não outro animal qualquer, tão ou mais desajeitado do que esta jovem ave, que nem cacarejar sabe?! Seguindo o mesmo raciocínio animalesco, e porque todos os outros jogadores também falham nas suas funções (a maior parte das vezes, de forma ainda bem mais escandalosa) o frango estaria para o guarda-redes assim como o peru (bêbado) para o “ponta-de-lança” sempre que este falhasse um golo “à boca da baliza”…ou, não é assim?!
Tauromaquia
Outras expressões interessantes são a “revienga”, e os “rodriguinhos”, que se referem aos movimentos de um jogador, quando o mesmo tenta ludibriar o seu adversário, de maneira a passar por ele. Não sei porque razão (será subliminar, certamente) mas, “revienga” sugere-me capote e touros... os “rodriguinhos” (e mantendo a mesma linha de pensamento) sugerem-me o nome dos bandarilheiros que os lidam… olé!!!
O termo “cobrir” é também ele utilizado com bastante frequência no futebolês, referindo-se à posição defensiva que o jogador adopta de maneira a não deixar passar a bola para uma determinada zona do terreno. Quanto a mim, também esta designação é um tanto ou quanto desajustada visto que o futebol (que eu saiba) é só jogado por machos e não tem qualquer intuito reprodutivo!!!
Engenharia
Às vezes parece que os campos de futebol são inclinados, a avaliar pelo uso sistemático do termo “subir”, quando uma equipa se vê obrigada a deslocar para mais perto da sua área, com o intuito de defender. E, o mais engraçado (e porque não dizer, penoso) é que não vejo a ser aplicado o termo “descer” (que é sempre muito mais agradável – pois todos os santos ajudam) para caracterizar o contrário. O futebolês consegue uma coisa extraordinária que é a de contrariar as próprias leis da física!!!
Um “túnel” é um termo aplicado sempre que um jogador faz passar a bola entre as pernas de um jogador adversário. Quando esta mesma situação ocorre num jogo de rua, entre amigos, o termo aplicado é outro, que me escuso aqui (e agora) de nomear (não pareceria bem - para mais, porque toda a gente sabe o nome da fêmea do roedor que estou a falar).
Advocacia
A “falta” é o termo aplicado sempre que um determinado jogador joga de forma não legal (ou será, não lícita?!), segundo as leis do jogo, tirando vantagem da mesma. Falta?! Mas, falta de quê?! De jeito ou de educação?! Nunca percebi… e, acho que é sempre dos dois!!!
Outra incoerência do futubolês é aquela que se refere ao nome atribuído às tais faltas, em função do local onde ocorram. Se forem dentro da grande área dão origem a um “penalty” – cuja tradução para português significa, castigo (termo bem aplicado, quanto a mim) – mas se forem fora da mesma área essas já não dão origem a um castigo, mas (pasme-se!) a um “livre”. Livre?! Livre de quê?! De obstáculos?! Não me parece, a avaliar pelas barreiras que são formadas…
Economia
Outro termo interessante é aquele que é atribuído sempre que um jogador se encontra à frente do último defesa da equipa adversária, aquando do momento do último passe – “Fora-de-jogo”. Quanto a mim (e na minha modéstia opinião) em fora-de-jogo estão todos aqueles que não desempenham bem as suas funções, dentro do campo, continuando mesmo assim a auferir dinheiro “a rodos” que envergonham qualquer alma penada (como a minha…)!!!Luís Alturas, 13 de Outubro de 2011

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