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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A Verdade do Evangelho
(Segundo a perspectiva de Luís Alturas)


Capitulo II

Nazaré, 7 de Abril do ano 7 a.C.

    Naquela manhã, Maria estava excepcionalmente agitada. Sabia que Gabriel iria aparecer em sua casa à hora da merenda. Tinha-lho dito, no dia anterior, quando com ela se encontrara  junto à fonte, à saída do povoado.

    A fonte passara a ser o local onde os mesmos se encontravam, quase todos os dias, desde que se haviam conhecido. Haviam feito da recolha de água, ao alvorecer, a forma – a única, até então – de se encontrarem. E não obstante haver muita gente do povoado a deslocar-se à mesma hora a essa bica, para se abastecer de tão precioso líquido, eles nunca haviam feito ninguém suspeitar do amor que nutriam um pelo outro.
    - Desejo-vos, Maria… – Sussurrara-lhe ao seu ouvido Gabriel quando, já sem ninguém por perto, levara o seu cântaro à fonte e se abeirara o mais que pode do corpo dela.
    - Não devieis dizer tais insanas palavras, Gabriel! Pois que está errado isto que ora fazemos... Não podemos continuar a ver-nos… – Replicara Maria, se bem que as palavras que lhe saíam da boca não correspondessem verdadeiramente àquilo que o seu coração sentia.
    - Amanhã, irei seguro a vossa casa, Maria… desejo amar-vos...
    Ao ouvir isto, Maria estremeceu. Apesar dessa ideia perturbadora já lhe ter passado muitas vezes pela cabeça, corroendo-lhe a alma como um fogo ardente, ela lutava por afasta-la do seu pensamento e nunca ousara proferi-lo. Nunca esperara, também, que Gabriel alguma vez o fizesse, por respeito a José.
    - Não... – Ripostara de imediato, assustada e confusa com aquilo que acabava de ouvir – Não me façais passar por tamanha provação, Gabriel. Peço-te...
    Mas Gabriel continuou, sussurrando-lhe ao seu ouvido, como se não tivesse escutado aquele apelo que, sabia-o, não era sentido.
    Sem dizer qualquer outra palavra que fosse, Maria quedou-se imóvel a escutar o plano que Gabriel elaborara para concretizar o seu intento. Depois de o ouvir, ficara sem pinga de sangue. Agarrara no cântaro, que estava agora repleto de água fresca e límpida, colocara-o à cabeça e fugira dali no passo mais apressado que as suas pernas permitiam.

    Gabriel era um jovem garboso a caminho da vintena de idade, de feições delicadas e trato educado, que trabalhava como carpinteiro na oficina de José, havia quase um ano. Desde o dia em que fora convidado para cear em casa do seu mestre e conhecera a sua esposa, que ficara enamorado daquela doce e cândida figura. Nunca mais esta lhe saíra do pensamento. Expressara-o, certo dia em que esta fora levar a merenda à oficina. Lutava diariamente contra este sentimento pois tinha consciência que estava errado cobiçar uma mulher que já pertencia a outro homem – principalmente, aquela mulher – mas também sabia que esse sentimento não desapareceria enquanto não a amasse, nem que fosse por uma única vez.

     Depois de limpar a casa com maior afinco do que alguma vez fizera, Maria tomou um banho com sabões perfumados e, sem que vestisse qualquer roupa para esconder o seu corpo, fechou as cortinas da pequena janela que iluminavam o quarto e deitou-se sobre a cama, cobrindo-se com o melhor dos tecidos que possuía. Já não deverá demorar...

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