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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A Verdade do Evangelho
(Segundo a perspectiva de Luís Alturas)


Capitulo VII

Nazaré, 7 de Abril do ano 7 a.C.

    Finda aquela que lhe parecera ter sido a mais longa jornada matinal, desde que ali laborava, e não saindo sem antes agradecer, uma vez mais, ao seu mestre por tamanha consideração, Gabriel saiu a correr, da oficina de José, em direcção à casa de Maria. Ao longo daquele, que se mostrava ser o mais tortuoso e infindável caminho que alguma vez percorrera, tentava passar o mais despercebidamente que lhe era possível, das gentes com quem se cruzava, usando para tal propósito o manto para lhe esconder a cara. Ao contrário do castanho, feito de pêlo de camelo, que habitualmente envergava, naquele dia, especial, havia escolhido o melhor dos mantos de que era detentor – um, bege, de linho fino, feito pelas já muito envelhecidas, mas mesmo assim habilidosas, mãos da sua mãe.
    À medida que se aproximava daquela tão almejada casa, o seu passo tornava-se cada vez mais lesto, de tal forma que, quando não vislumbrava ninguém em seu redor, galgava alguns metros em passo de corrida. Estava ansioso por abraçar e beijar o corpo daquela mulher, com quem sonhava havia tantas noites, desde que a conhecera.
    Quando finalmente chegou a tão aguardado destino, entrou sem se fazer anunciar. A casa, agradavelmente fresca e limpa, parecia vazia. Pé ante pé, Gabriel fez-se, então, aproximar da porta do quarto, que se encontrava entreaberta. Espreitou pela frincha e ficou estupefacto com o que observou. Na penumbra do quarto, desfeita a espaços por alguns raios de sol que penetravam por entre as cortinas dependuradas na pequena janela, Maria encontrava-se deitada nua sobre a cama, com um simples véu de seda escarlate a esconder o seu escultural e belo corpo. Sem ruído, Gabriel entrou no quarto e desfez-se rapidamente de toda a sua roupa. Nu, deixou cair o seu corpo latejante para junto dela. Sem pronunciar qualquer palavra, começou a afagar-lhe suavemente o cabelo e a acariciar a sua quente e aveludada face. O que começou por serem ternas carícias na face, rapidamente se precipitaram para ávidas e descontroladas carícias no pescoço, coxas e seios. Depois de uma pequena e quase imperceptível resistência inicial, que lhe era ditada pela consciência, Maria abandonou-se àquelas carícias com volúpia e desejo, dizendo:
    - Eis-me, agora sou tua, aconteça a mim aquilo que disseste…
    Aqueles dois jovens corpos ardentes amaram-se apaixonadamente, durante um par de horas, em movimentos sôfregos de puro deleite. Abandonaram-se à volúpia e ao desejo. Davam prazer um ao outro, sem que fosse necessário verbalizar. Parecia que já se haviam amado, em alguma altura das suas vidas. Mas nunca o haviam feito. Era, para ambos, a primeira vez. Eram até à data, virgens. Imaculados.
    Depois de terem satisfeito avidamente o seu desejo, permaneceram deitados, ao lado um do outro, em absoluto silêncio. Estavam esgotados. Felizes.
    Quando Gabriel se preparava para abandonar a casa, Maria, com os olhos marejados de lágrimas, fizera-lhe um pedido sentido.
    - Gabriel, prometei-me que não voltais jamais a procurar por mim… A partir deste momento entregarei o meu corpo e a minha alma somente a Deus, Nosso Senhor… e aguardarei humildemente pelo castigo que este tenha reservado para mim...
    Gabriel voltou-se e, com um premonitor aceno de cabeça, anuiu.
    - Bendita sois vós, Maria…

    A partir desse dia, Gabriel não mais voltaria à oficina de José. Não porque tivesse ficado arrependido daquilo que fizera mas, porque – contariam a José ao anoitecer – o seu abdómen havia sido apunhalado incontáveis vezes por dois meliantes, quando se dirigia a caminho de casa da sua mãe. O motivo de tão vil crime fora o roubo do seu manto de linho fino com o qual se fazia transportar.
    - Pobre diabo… que descanse em paz, na companhia do Senhor… – Dissera, a certa altura daquele relato, José.
    Maria ficara em choque, quando José lhe contara, e chorara compulsivamente, durante toda aquela noite. Pensara que este havia sido o castigo que Deus guardara para ela, pelo pecado que cometera horas antes. Ainda não o sabia mas, naquele dia havia sido concebido dentro do seu ventre aquele que, exactamente no mesmo dia, trinta e sete anos mais tarde, viria a ser vilmente castigado para remissão do seu pecado.

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