A Verdade do Evangelho
(Segundo a perspectiva de Luís Alturas)
Capitulo VIII
Betabara, 11 de Abril do ano 30 d.C.
- Joshua... Que trazeis aí, meu filho?! – Sussurrara-lhe João, ao mesmo tempo que olhava para o seu amo que, depois de um breve estremunhar provocado por aquele ruído, havia voltado novamente ao sono.
- Unguentos, senhor... unguentos que farão cicatrizar as feridas de meu pai… – Informara-o, também ele susurrando, enquanto apanhava de forma lesta e decidida a sacola do chão.
- Muito bem, meu filho... Bendito sejas...
- Obrigado, senhor…
No mesmo instante em que retirava do interior da sua sacola o frasco de vidro translúcido, que afortunadamente não derramara a substância repugnante que preenchia o seu interior, Madalena, que também se havia assustado com aquele estampido, entrava no quarto, sem aviso. Consternada com aquilo que lhe era dado a observar, e percebendo imediatamente que Joshua lhe houvera desobedecido, sentiu-se na obrigação de intervir.
- O que é isso que segureis na mão, Joshua? - Indagara-lhe inquieta, ao mesmo tempo que lhe agarrava o braço franzino. - Onde o fostes buscar...? Dizei-me que não fostes ao mercado...?! – Sussurrava-lhe estas palavras tão próximo da sua orelha que Joshua conseguia sentir o calor do ar que lhe saia da boca.
O silêncio de Joshua era, só por si, denunciador.
- Não pode ser… já te havia dito que não podíeis sair para lugar populoso... E se te tivessem reconhecido? Estaríamos agora na necessidade de fugir novamente... – Madalena continuava a segurar o braço de Joshua, fazendo o seu corpo estremecer com a palavra que lhe murmurava – E vosso pai…?! Tu vedes... que não está em condição de poder sair daqui... Não o façais jamais! Prometei-me...
Mas Joshua não estava em condições de prometer pois, cabisbaixo, começara a chorar.
Ao ver a tristeza estampada no rosto da criança, e porque achava que esta não havia merecido tamanha descompostura daquela mulher, que era sua mãe, João logo interveio.
– Não censurais Joshua por tal comportamento, Madalena. Não vedes que o rapaz é inteligente e astuto?! – E dizendo isto, sem mais delongas, tirou o frasco da mão de Joshua, abriu a sua tampa e começou a espalhar cuidadosamente aquela substância pastosa pelas feridas do seu mentor.
Nesse momento, Madalena não se conteve. Abraçando Joshua – que soluçava – contra o seu peito, chorou.
Natural de Magdala, Madalena fora em tempos prostituta, em Jerusalém. Havia sido, por muitas vezes, brutalizada pelos homens a quem vendera o seu corpo e, por essa razão, lembrava-se perfeitamente do conforto que houvera sentido sempre que aplicara, a si própria, tal essência sobre a pele ferida.
Conhecera aquele homem que ali jazia, deitado à mercê da morte, quando certo dia estivera ela própria à beira de morrer apedrejada, injustamente, por presumível adultério. Fora prostituta mas nunca se considerou a si mesma adúltera, pois nunca fora pertença de qualquer homem. Nunca mais lhe havia saído da cabeça o que ele dissera, demovendo o povo enfurecido de a matar. “Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra”. Haviam sido estas singelas, mas muito verdadeiras, palavras que a haveriam de salvar pois, depois de proferidas, já ninguém ousou fazê-lo. Desde então, Madalena não mais vendera o seu corpo. Apaixonara-se por aquele homem e entregara-se a ele de corpo e alma. Passou a ama-lo incondicionalmente de tal forma, que do seu ventre viriam a nascer Joshua e, dois anos mais tarde, a pequena e doce Hanna.


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