A Verdade do Evangelho
(Segundo a perspectiva de Luís Alturas)
Capitulo IX
Nazaré, 15 de Agosto do ano 7 a .C.
Os meses iam-se passando e Maria não conseguia esconder por muito mais tempo a sua proeminente e reveladora barriga. O que quer que trajasse, para disfarçar tal deformação, já não tinha a quantidade de tecido suficiente para o fazer eficazmente. José ainda não se tinha apercebido de tamanha metamorfose anatómica no ventre da sua mulher pois não partilhava com ela a mesma cama. Nunca o havia feito. Apesar de esposos, havia mais de um ano, o seu casamento ainda não havia sido consumado.
Descendente da casa de David, filha dos nazarenos Joaquim e Ana, Maria fora criada em Jerusalém pela sua tia materna Elizabete e pelo seu esposo Zacarias. Tivera uma infância normal, alegre e tranquila e com o passar dos anos tornou-se numa bela mulher. De tal maneira que, a certa altura, fora muito cobiçada por todos os homens em idade de casar. Não era muito alta, no entanto a sua expressão corporal não deixava ninguém indiferente. A sensualidade dos seus contornos combinava na perfeição com a doçura do seu olhar. Os seus olhos brilhantes cor de azeitona e o seu cabelo escorrido, que se ocultava por baixo do véu, eram de um negro tão escuro que envergonhava a própria noite. Ao contrário do seu recatado nariz, os lábios apareciam indiscretamente carnudos e escarlates. Simples na maneira de trajar, Maria tinha uma pela clara, fina e doce.
Por influência de uma educação monástica, desenvolvera, desde muito cedo, um grande interesse pelos rolos de papiros da Escritura Sagrada, que eram guardados na sinagoga e lidos e discutidos nas reuniões semanais dos judeus de Nazaré. Por essa razão fora desenvolvendo um extremo senso de religiosidade e pusera-se-lhe na ideia que Deus a escolheria de entre as mulheres, para uma missão divina na Terra.
Maria tinha somente catorze anos quando se tornara noiva de José, de quem era ainda aparentada, e havia-lhe pedido para que este aguardasse algum tempo até que se sentisse preparada para consumar tal relação. Afinal de contas, era ainda muito jovem e aquele acto, que apenas ouvira falar, por mulheres bem mais velhas, repugnava-a. Durante o dia não se viam, pois José partia para a oficina com os primeiros laivos de sol e quando regressava, para a ceia, já ela se havia deitado. Mas naquele dia, Maria decidiu esperar pelo seu esposo e contar-lhe sobre a transformação que se processava dentro do seu ventre. Teria de ser convincente, pois de outra forma – caso José percebesse que havia cometido adultério – corria o sério risco dele a denunciar e de vir a ser morta, na praça pública, por apedrejamento. É hoje…
Mal entrara em casa, José sentira o habitual cheiro a óleo queimado, proveniente da lamparina que se mantinha acesa durante todo o dia, acomodada numa cavidade na parede. Descalçara as suas sandálias e estendera a sua esteira no chão de terra batida a fim de fazer as suas orações habituais antes da ceia. Mas ainda não se havia ajoelhado quando, de súbito, Maria saía do seu quarto e se perfilava diante dele, vestida com a mais fina tunica de linho que possuía.
- Que fazeis aqui, mulher?! – Indagara-lhe, espantado por vê-la, ali, naqueles preparos. - Porque não estais deitada em vosso leito...?!
- Tenho uma coisa de muita importância para vos contar, senhor... – Respondera-lhe Maria, depois de encher o seu peito com maior quantidade de ar que o mesmo suportava, para não lhe faltar a coragem de soltar aquelas palavras que se detinham, havia muito tempo, presas na sua boca e retidas no seu espírito.
- Olhai para o meu ventre, senhor... – Continuara, esticando agora a sua túnica de forma a evidenciar aquilo que desejava, nessa noite, mostrar.
-Que se passa com vosso ventre, mulher?! – Indagara, José, ao mesmo tempo que olhava atónito para aquela redonda e proeminente barriga.
- Fui abençoada, senhor... hoje, enquanto jazia deitada em meu leito, um anjo alado feito de uma luz tão imaculada e cintilante que ocultava as suas feições, visitou-me dizendo-se ser um mensageiro de Deus... disse-me que eu havia sido escolhida por Ele para transportar dentro do meu ventre aquele que será considerado, por todos, o messias... o Seu filho, que virá à terra para salvar o homem de todos os seus pecados...
- Estais segura que era de um anjo que se tratava, mulher?! – Indagara, agora já muito inquieto.
- Achais que vos estou mentindo, senhor...?! – Respondera-lhe, enquanto baixava os seus olhos para o chão e afagava delicadamente o seu ventre.
- Não... – Balbuciara. José estava muito pouco seguro das palavras que ouvia sair da boca da sua, até então, casta mulher. - Mas, como é possível que já estejais com o ventre tão inchado, mulher…?!
- Não vos sabei responder... no entanto, não ouso questionar os desígnios do Senhor... – Defendera-se assim, enquanto juntava as palmas das suas mãos, por altura do peito, em sinal de veneração. – Vós ousais, senhor…?!
Apesar de ser um homem muito crente e devoto, José não se convencia com aquela história que, agora, lhe era contada por Maria. Aquela condição do seu ventre não poderia ser, de forma alguma, obra e graça do espírito santo. Era impossível. Tivera-a sempre em boa conta e, agora, percebia que se havia enganado. Maria havia pecado. Havia cometido adultério. No entanto, pior do que leva-la ao julgamento público, condenando-a à morte certa por apedrejamento, seria a cruz que José teria de carregar durante toda a sua vida se toda a população do burgo viesse a saber que havia sido traído pela sua mulher. Isto (sabia-o) não iria conseguir aguentar. Assim, e da mesma forma subtil com que Maria lhe contava aquela história descabida, também José começava a fingir que se convencia com aquilo que ouvia.
- E como se chamava esse anjo, mulher… Disse-vos?!
Neste momento, Maria lembrara-se de Gabriel. Mas não ousou pronunciar tal nome. Nem esse nem nenhum outro, pois poderia levantar suspeitas, agora que parecia que a sua história estava a ser convincente.
- Não mo disse, senhor...
- Tendes a certeza do que me estais a dizer, mulher...?!
- Claro, meu bom esposo... nunca me passaria pela cabeça mentir-vos... vós sabeis... – Disse Maria, em jeito de remate, enquanto se voltava em direcção ao quarto.
- Maria! – Chamou-a, José, agora com a voz mais entaramelada que conseguia colocar.
Ela deteve o passo, olhou para trás e ficou estupefacta com o que observou. José encontrava-se prostrado de joelhos sobre a esteira, com as lágrimas a escorrerem dos seus olhos.
- Bendito é o fruto do vosso ventre...
Passados 4 meses José e Maria abandonavam a Galileia a caminho de Belém, na Judeia, a fim de efectuarem o recenseamento obrigatório decretado pela lei romana, desde o édito do imperador César Augusto, mal sabendo que aquele que se fazia viajar dentro daquele ventre haveria de nascer precisamente por essa altura.

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