A Verdade do Evangelho
(Segundo a perspectiva de Luís Alturas)
Capítulo X
Betabara, 22 de Agosto do ano 30 d.C.
Desde que ali chegara, João passara a comer à mesma mesa com os demais. Não era homem de muito sustento no entanto, acabava por ser mais uma boca a contribuir para o despejo dos víveres daquela humilde casa. Uma vez que estariam ali provisoriamente, Madalena não havia comprado galinhas nem feito sementeira. Desde o primeiro dia que a comida era comprada ocasionalmente, com a ajuda de algum dinheiro que Madalena amealhara em Jerusalém, no pequeno mercado daquele povoado. Esses comestíveis consistiam, fundamentalmente, de farinhas, legumes e algum peixe.
Certo dia, João informara Madalena que iria, ele mesmo, ao mercado comprar o que ela havia colocado em rol. Achava por bem ajudar no sustento daquela casa que passara, também, a ser sua. Uma vez aí chegado, e enquanto percorria os acanhados corredores daquele espaço, sempre imensamente povoado e repleto dos mais variados tipos de cheiros, cores e sabores, o seu olhar fixara-se num homem de figura e comportamento bizarros. Já muito envelhecido pelo tempo e com uma cútis excepcionalmente morena, a sua face estava repleta de intricados e profundos sulcos, que se estendiam da fronte até ao proeminente queixo do qual fazia pender uma estreita e longa barba branca. Com um turbante dourado a adornar-lhe a cabeça e com um manto escarlate bordado a ouro sobre uma túnica negra, o homem fazia grande algazarra, dizendo-se curandeiro. “Fui abençoado com umas mãos milagrosas… consigo curar todos os males e enfermidades…”, bradava essa figura singular, ao mesmo tempo que lançava as suas mãos em direcção a todos quantos por ele passavam. “Toquem as mãos de Deus…! Sintam o seu poder…!” – Continuava.
Uma vez que os unguentos que, certo dia, Joshua levara ilicitamente daquele mesmo local não haviam tido, até então, o efeito curativo pretendido nas feridas perfurantes do seu amo que teimavam em não sarar, João abeirara-se dele e indagara-o.
- É sério aquilo que dizes…?!
- Sério, senhor… – Respondera-lhe, com um olhar de tal forma penetrante e revelador que João não ousara mais questioná-lo.
- Quero, então, que vás comigo… mas com uma condição! Não deverás jamais questionar sobre quem tratas nem, tão pouco, avisar alguém que o fazeis. – Dissera-lhe João, com uma voz grave, ao mesmo tempo que lhe colocava dissimuladamente uma moeda na palma da mão. Olhando para a moeda o homem sorriu e, com um vigoroso abraço, aquiesceu.
- Certo, senhor…
Desde então, passara a dirigir-se todas as madrugadas – muito antes do sol nascer – a casa do seu amo prestando-lhe tratamentos. Graças aos preceitos daquele que se viria a mostrar um bom samaritano, curandeiro de profissão, cujas mãos pareciam ter olhos e as palavras vontade, as fracturas em ambas as mãos e ambos os pés começavam a solidificar-se alinhadas, bem como as feridas espalhadas pelo corpo que começavam a sarar.
Naquele escaldante dia de Agosto, e pela primeira vez desde que ali chegara, João pudera observar o seu amo a levantar-se da cama, sozinho, e dirigir-se em passo lento e cambaleante até ao exterior da casa, recusando a ajuda de todos quantos assistiam a este inédito comportamento. Ninguém queria acreditar naquilo que os seus olhos viam. Maria, Madalena, Joshua e Hanna ficariam petrificados a observar atónitos a tamanha proeza.
Uma vez aí chegado, ajoelhara-se no chão e, erguendo as suas mãos para o céu, proferira uma única palavra:
- Obrigado…
Nesse dia João percebera que ele havia renascido.


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