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domingo, 11 de março de 2012

A Verdade do Evangelho
(Segundo a perspectiva de Luís Alturas)

Capitulo XII

Betabara, 25 de Dezembro do ano 30 d.C.

    Já se haviam passado mais de 9 meses sobre aquela fatídica tarde e Jesus encontrava-se, agora, praticamente recuperado, graças ao curandeiro que continuava a fazer-se deslocar a sua casa, todos os dias ao romper da alva. Não tivera uma convalescença fácil. Ao contrário, essa fora muito demorada e dolorosa. No entanto, tinha valido a pena todo o sofrimento por que passara já que, agora, ele apresentava-se o mesmo homem que João decidira seguir há alguns anos atrás.
    De todos os seus doze mais devotos discípulos, João era o mais novo e aquele por quem Jesus nutria maior confiança e amizade. Era um homem muito imaginativo nas suas comparações, introspectivo nas suas dissertações e pouco falador. Jesus tratava-o como Filho do Trovão pois, das poucas vezes que deixava que as palavras saíssem da sua boca, fazia-o com tal intensidade que não deixava ninguém indiferente. Havia sido pescador de profissão, no lago Tiberíades e, juntamente com o seu irmão Tiago, havia feito sociedade com André e Pedro. Desde que começara a acompanhar Jesus, decidira abandonar por completo essa actividade e passara a viver os seus dias apenas com um único objectivo: o de servir, da melhor forma que sabia e conseguia, o seu amo e senhor.
    No dia do seu trigésimo sétimo aniversário, João quisera presentear Jesus com uma grande ceia, onde estivessem reunidos todos os seus discípulos. Para concretizar tão ambicioso propósito, João enviara um mensageiro a Jerusalém para que este fizesse chegar notícia a Tiago. Caberia, assim, a este último convocar os demais para que tão surpreendente acontecimento pudesse ter lugar. Seria a primeira ceia que fariam depois da última, que tivera lugar no Monte Sião e onde João não estivera presente.

    Essa havia decorrido na quinta-feira pascal em casa de João Marcos – jovem que haveria de correr nu apenas algumas horas mais tarde – e revelar-se-ia uma reunião arrepiantemente premonitória. Contara-lhe Madalena, que nessa noite aí se fizera representar, a pedido de Jesus, que no princípio da ceia ele havia conversado muito amavelmente com todos mas que, de súbito, e sem qualquer razão aparente, tornara-se muito sério e triste.
    Recordava-se que a determinada altura, enquanto ele servia a alface aos que estavam ao seu lado, encarregando Judas Iscariotes, que lhe ficara quase em frente, de fazê-lo pelos demais, com um semblante carregado e de uma forma muito grave lhes dissera: “Um de vós irá atraiçoar-me.”; que mais tarde, pegara num pedaço de pão que se encontrava à sua frente e que, para surpresa de todos, proferira uma outra afirmação tão estranha como a anterior: "Este é o meu corpo que será entregue a vós"; e que já no final da ceia pegara no seu cálice, que enchera previamente de vinho, e ao mesmo tempo que o levantava no ar lhes dissera: "Este é o meu sangue, o sangue da vida que será derramado por vós.".
    Madalena ficara extremamente assustada com as palavras que ouvira sair da boca do seu esposo naquela ceia, mas não tivera oportunidade de saber mais detalhes pois, ainda nessa mesma noite, ele seria preso pelos guardas do templo e levado a um interrogatório no Pretório.
   
    Tiago havia conseguido falar com os demais companheiros e assim, naquele momento estavam, como fora o propósito de João, todos os treze homens sentados à volta da grande mesa de madeira que preenchia o centro daquela casa. Mas, desta feita, e ao contrário do que se havia passado na última ceia, Madalena não se sentara ao lado direito do seu esposo. Quem ocupava esse lugar era, agora, João.
    Numa altura em que todos falavam ainda muito desordeiramente, contando aquilo por que haviam passado desde a última vez que haviam estado reunidos, e sem que ninguém esperasse, Jesus fizera uma inusitada pergunta:
    - E Judas Iscariotes?!
    Nessa altura, fizera-se um silêncio sepulcral. Enquanto uns baixavam os olhos para o prato ainda vazio que tinham à sua frente, outros olhavam atónitos para Jesus sem saberem o que dizer. Seria João que acabaria por interromper aquele incómodo silêncio, contando-lhe que este seu discípulo havia cometido suicídio, através de enforcamento, sem lhe apontar, no entanto, a verdadeira razão para tão tresloucado acto.
    Consternado com aquilo que João acabava de lhe comunicar, Jesus agarrou no jarro de argila que alojava o vinho destinado àquela ceia, encheu o seu cálice e levantou-se. Depois, solicitou a todos os seus discípulos para que fizessem o mesmo. Sem hesitarem, assim o fizeram.
    Certificando-se que estavam todos de pé, munidos dos seus cálices repletos de vinho, Jesus dissera-lhes:
    - Fazei isto em memória dele…
    E de um só trago beberam todo aquele doce líquido em memória de um traidor.

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