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quarta-feira, 14 de março de 2012


A Verdade do Evangelho
(Segundo a perspectiva de Luís Alturas)

Capitulo XIII

Belém, 06 de Janeiro do ano 7 a.C.

    Eram ainda passados muito poucos dias sobre o nascimento de Jesus – agora deitado sobre as palhas enxutas de uma manjedoura e embrulhado num manto branco de lã – quando, certa noite, três homens de semblante muito distinto, trajando vestes finas de cores exuberantes, compareciam junto dele, naquela fria e escura gruta nos arredores de Belém.

    Provindos das longínquas terras do oriente, e fazendo-se acompanhar de uma comitiva de nove outros homens, três astrónomos – discípulos de Zoroastro – haviam atravessado o deserto conduzidos por um fenómeno astronómico rarissimo: a conjução dos planetas Júpiter e Saturno, na constelação de Peixes. Esta proximidade planetária tivera como resultado o surgimento de uma resplandescente e rara dupla estrela nos céus noturnos da Judeia a que estes logo haviam associado ao nascimento de um novo rei na região.
    Ao longo de um ano, e depois de um percurso de mais de mil quilómetros, eles haviam chegado ao palácio do rei Herodes, em Jerusalém, a fim de saberem mais notícia sobre tal nascimento real. Alarmado e sentindo-se ameaçado, Herodes informara-os que nada sabia a esse respeito e pedira-lhes que, caso o encontrassem lhe dessem conhecimento pois, também ele queria ir adorá-lo. Os homens anuiriam mas nunca o fizeram. Mesmo assim, para acabar com aquela que considerava ser uma séria ameaça ao seu poder na região, um ano depois este monarca haveria de dar ordem para que se matassem todas as crianças que não tivessem atingido os dois anos de idade obrigando, assim, aquela pobre família a fugir para o Egipto.
    Chegados a Belém, os três homens haveriam de ser informados pelo dono do albergue que uma mulher grávida havia lá estado alguns dias antes, acompanhada do seu esposo mas, porque não havia espaço para os acolher, havia abandonado o local deslocando-se para fora do povoado. Assim, os homens decidiram procurar nas imediações do burgo por algum casebre onde tal família pudesse estar asilada. Num dos sinuosos caminhos por onde se fizeram deslocar, e já muito desolados por não terem conseguido – em todas as casas onde haviam batido à porta – encontrar qualquer família com uma criança recém-nascida, haveriam de ver uma ténue fumaça branca a dissipar-se no negrume dos céus, provinda de uma fogueira, junto à entrada daquilo que lhe parecia ser uma gruta. Achando tal situação muito inusitada, acabariam por investigar.
    Melquior, homem cuja idade roçava a sétima dezena de anos e cuja cabeça se fazia cobrir de cabelos e barbas brancas, fora o primeiro a entrar. Empunhando uma tocha na sua mão direita e entrando muito sorrateiramente, Melquior pusera em grande sobressalto Maria e José que, agora, dormiam.
    - Não temeis, meu bom homem… que vimos em paz…! – Murmurara Melquior, quando se apercebera que, para além de alguns animais, aquela gruta albergava também uma família constituída por dois adultos e uma criança, recém-nascida, que começava, exactamente por esta altura, a chorar.
    Enquanto José se punha em pé da forma mais lesta que encontrava, com a mão sobre a fronte a fim de evitar a intensa luz proveniente da tocha que o encadeava, perguntara assustado:
    - Quem sois vós…?! O que quereis…?!
    - Descansai… que vimos em paz... – O alívio que estas palavras pretendiam produzir no espirito de José seria imediatamente quebrado, quando este observou que outras duas tochas deambulavam erraticamente na sua direcção, conduzidas por outras figuras tão exuberantes, na forma de trajar, como o homem que falava.
    Desta feita, um moço robusto, de apenas vinte anos, que se havia de apresentar à família com o nome de Gaspar dissera-lhe, com uma voz firme e clara:
    - Só desejamos ver aquele que é o rei…
    - Rei…?! Mas que deveis estar enganados, vossas senhorias… que aqui não há nenhum rei… – Ripostara-lhe José, de forma algo atabalhoada pela tamanha bizarria que acabava de ouvir.
    Ao mesmo tempo, Maria que se quedava muda e assustada, temendo pela vida do seu filho, colocava-se entre aqueles estranhos homens e a manjedoura onde Jesus continuava a chorar.
    - Deixai-nos passar… – Dissera abruptamente o terceiro homem, de cútis morena e barba cerrada, aparentando ter menos idade que o primeiro e mais do que o segundo, que se haveria de intitular como Baltasar.
    Percebendo-se indefesos, à mercê da vontade daqueles três homens, o seu sangue gelara-se-lhes de tal forma que não conseguiriam oferecer-lhes qualquer resistência. À medida que estes penetravam mais adentro naquele abrigo, em direcção à manjedoura, José arredar-se-ia para o lado e Maria faria exactamente o mesmo, com os olhos marejados de lágrimas e temendo o pior.
    Sem que nada o fizesse prever e para pasmo de José e Maria, que ficariam petrificados a observar tão insólita cena, os três homens abeiraram-se da manjedoura e logo que vislumbraram a figura do menino, que agora miraculosamente se calara, prostraram-se em sinal de adoração. Depois de uma série de surpreendentes orações, retirariam do interior dos seus mantos aquilo a que chamariam de “tesouros”, depositando-os junto dele. Melchior entregar-lhe-ia ouro “em reconhecimento da realeza”, dissera; Gaspar depositaria incenso “em reconhecimento da divindade”, dissera; e, por último, Baltazar deixar-lhe-ia mirra “em reconhecimento da humanidade”, dissera.
    Pouco tempo depois, estes três faustosos homens haveriam de abandonar aquela gruta longe de saberem que, aquele a que haviam adorado como se de um rei se tratasse haveria de ser condenado à morte, trinta e sete anos mais tarde, pela mesma razão.

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