A Verdade do Evangelho
(Segundo a perspectiva de Luís Alturas)
Capítulo XVII
Belém, 07 de Abril do ano 30 d .C.
Ao contrário do que lhe dissera sua mãe, e porque na noite anterior a ouvira dizer a Maria e às suas irmãs, Salomé e Marta – aquando da sua chegada, já muito tardia e solitária a casa, após a ceia para a qual havia sido convocada – que o seu pai havia sido preso pelos guardas do templo, Joshua não permaneceu em casa com os seus tios Judá e Rute. Atreveu-se a segui-la até àquela praça onde a multidão exaltava com o terrível veredicto de Pilatos.
Joshua ficaria horrorizado com aquilo que, naquele dia, ali viria a assistir. Nunca esperara presenciar tamanha crueldade e traição por parte daqueles que em determinada altura idolatraram o seu pai. Os mesmos que, agora, eram também os responsáveis pela sua condenação.
O seu coração parecera querer saltar-lhe do peito quando viu o seu pai humilhado, nos degraus da entrada principal do Pretório, vestido com um velho manto real e com uma coroa de espinhos sobre a sua fronte. As lágrimas escorreram-se pela face em catadupa e só o seu pequeno tamanho fizera com que passasse despercebido às gentes que o haviam visto acompanhado de Jesus, desde a sua chegada a Jerusalém, havia precisamente 3 dias.
Depois de Jesus ter sido agarrado pelos soldados romanos, que o conduziriam para as traseiras do edifício, Joshua correu para o Gólgota, pois sabia que seria esse o local da execução que fora determinada pelo terrível veredicto de Pilatos. Durante o caminho ouviria o escárnio das gentes que aguardavam pela passagem do seu pai e por instantes apetecera-lhe matar todos quantos ali se encontravam.
Uma vez chegado àquela colina, que ficava fora das muralhas da cidade, observara que dois outros homens já haviam sido ali crucificados pelos centuriões romanos. Ficara horrorizado com aquela cena. A mais macabra que vira até à data. O choro e a raiva que sentia tornavam-se, agora, ainda mais intensos. Não queria acreditar que o mesmo pudesse vir a acontecer, pouco tempo depois, com aquele que era o seu pai.
Permanecendo agachado, por detrás de um grande penedo – de forma a não ser visto por ninguém – Joshua conseguia observar toda a parte baixa da cidade. Distinguia as ruas por onde, ainda havia pouco tempo, passara e que continuavam apinhadas de figuras humanas, aguardando por aquela que se viria a revelar como uma penosa caminhada de Jesus até ao Calvário. A certa altura, conseguira ver a figura do seu pai carregando o enorme cadafalso, ao mesmo tempo que a multidão que o rodeava aplaudia e zombava daquele martírio por que passava. Pouco faltaria para que ele chegasse ao Lugar da Caveira.
Durante os minutos que se seguiram, Joshua viu começarem a chegar alguns dos seus seguidores e amigos. Num primeiro grupo vira chegar Pedro, André, Tomé, Filipe e Mateus. Estes eram seguidos por Bartolomeu e Tiago Maior. Um pouco mais atrás surgiriam as figuras de Tiago Menor, Simão, Tadeu e João. De todos aqueles que haviam sido os mais fiéis discípulos de Jesus, estranhamente só Judas Iscariotes não se encontrava. Instantes depois, era a vez da sua mãe que, abraçada à sua avó, estava inconsolável e num enorme pranto. Salomé e Marta seguiam-nas um pouco mais atrás. Queria poder ir para junto delas mas sabia que não o podia fazer. Manteve-se assim, muito quedo, observando tudo o que ali se seguiria.
A determinada altura, veria impotente a chegada de Jesus e ficaria petrificado pois quase não o reconhecera, tanto era o sangue que lhe escorria pela face. Depois de passados apenas alguns minutos para que se procedessem aos preparativos da execução, vira os centuriões romanos a cravarem os enormes pregos nas mãos e posteriormente nos pés de Jesus.
- Não... – Gritara, mudo, o seu espírito com tamanha raiva e angústia. – Não...
Joshua não conseguia conter as lágrimas que lhe escorriam desordeiramente pelo rosto. E assim ficaria, durante mais algum tempo a assistir à agonia do seu pai, agora, jazendo suspenso naquela cruz.
Sentindo-se impotente diante daquela situação horrenda, aproveitara a debandada geral, aquando da aproximação da tempestade de areia, para também ele voltar para casa. Já não havia nada a fazer.
O seu jovem coração estava destroçado. Como era possível o homem ser tão cruel. Fazer tanto mal a alguém como o seu pai que fora sempre bondoso e cortês para todos. O mundo havia desabado. A partir desse dia, Joshua nunca mais seria o mesmo. Sabia-o

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