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quarta-feira, 21 de março de 2012

A Verdade do Evangelho
(Segundo a perspectiva de Luís Alturas)


Capítulo XVI

Jerusalém, 7 de Abril do ano 30 d.C.

    Porquê? – Esta interrogação, que lhe corroía o espírito desde que saíra do pátio do Pretório, só haveria de ser interrompida quando sentira a dor agonizante dos ossos desfeitos, depois da forte pancada desferida pelo carrasco romano sobre o cravo de ferro que, agora, prendia firmemente a sua mão direita à madeira daquela cruz.

    Ainda não eram nove horas da manhã quando, depois daquele terrível veredicto, quatro soldados romanos haveriam de levar Jesus até junto dos vários cadafalsos que estavam desordenadamente depositados numa espécie de armazém, nas traseiras do Pretório. Uma vez que Jesus se havia intitulado o rei dos judeus, os guardas obrigá-lo-iam a carregar o maior e mais pesado de todos quantos ali haviam. Com esta cruz aos seus ombros, Jesus sairia para a rua onde uma multidão, com cerca de mais de duzentas pessoas, o aguardavam vociferando, ávidas por ver aquele atroz sofrimento, numa espécie de catarse colectiva.
    Apesar de ter sido escolhido o caminho mais directo, a penosa caminhada até ao Lugar da Caveira, haveria de durar mais de uma hora, para gáudio dos muitos que apinhavam as estreitas ruas de Jerusalém e tristeza de outros, que se lançavam em seu auxílio, sempre que este, já não podendo mais com tamanho fardo, caía prostrado no chão.
    Alcançado o Gólgota, onde dois dos comparsas de Barrabás seriam, também, naquele dia executados, os soldados romanos haveriam de lhe dar a beber uma mistura à base de vinho, que funcionava como uma espécie de estupefaciente. Mas, tendo provado a bebida, Jesus recusara-a. Depois de despojado do velho manto real, túnica, cinto e sandálias, que os carrascos partilhariam entre si, o seu corpo, coberto apenas pelo pano da decência, haveria de ser içado a uma altura razoável com o madeiro que ele próprio carregara.
    - Porquê? – Esta interrogação não lhe saía da cabeça. A sua consciência não encontrava um motivo suficientemente forte para que pudesse merecer tamanho martírio. Não havia razão para tamanha injustiça. Certo dia, sua mãe contara-lhe que três homens a haviam visitado e dito que ele haveria de ser o rei dos judeus. Mas tal profecia não se havia concretizado. Pelo contrário. Havia tido uma vida pouco melhor do que miserável e agora estava ali diante do seu povo completamente exposto ao escárnio e maldizer.
    - Porquê? – O sol batia-lhe sem piedade nos olhos, já muito inchados e ensanguentados devido aos espinhos que lhe perfuravam a fronte mas, mesmo assim, conseguia vislumbrar a escassos metros a figura da sua mãe, da sua mulher, de João e de outros amigos.
    Maria, agarrada a Madalena, chorava compulsivamente e rogava àqueles soldados para que tivessem piedade do seu filho. Mas os homens pareciam não ouvir as suas súplicas e continuavam, imperturbáveis, a dar continuidade ao serviço para o qual haviam sido incumbidos.
    De súbito, Jesus ficaria praticamente inconsciente com a dor agonizante que sentiria nos ossos que se desfaziam, depois da forte pancada desferida pelo carrasco romano sobre o cravo de ferro que, agora, prendia firmemente a sua mão direita à madeira daquela cruz. Sem ainda se ter recomposto da dor infligida e logo outra, tão atroz, haveria de sentir quando um outro cravo lhe perfurara a esquerda.
    Nessa altura, Jesus deixaria de ouvir o pranto daquelas mulheres, agora, agarradas violentamente por dois dos soldados que ali estavam com o intuito de assegurarem a conclusão daquela execução. Já inconsciente, Jesus foi depois seguro, sobre a estaca que suportava o peso, por um terceiro cravo, que lhe trespassaria os pés sobrepostos.
    De repente, e sem que nada o fizesse esperar, o céu tornar-se-ia cinzento e no ar a finíssima poeira revelava a chegada iminente de uma forte tempestade de areia, característica daquela época do ano. Assim, depois de consumada a crucificação, a populaça começou paulatinamente a desmobilizar daquele local a fim de se proteger em suas casas. Ali só haveriam de ficar dois soldados romanos – encarregues de assegurarem que os corpos não seriam retirados sem antes lhes ter sido roubada a alma pelo criador – juntamente com Maria, Madalena, Salomé e os seus irmãos Judá e Rute.
    As horas iam passando e a tempestade mostrava-se cada vez mais violenta. O vento, que trazia a areia do deserto, soprava de tal maneira forte que feria a face daquelas figuras que se mantinham herculeamente junto de Jesus, protegendo-se da melhor forma que conseguiam com os seus mantos.
    A agonia que Jesus sentia era maior a cada hora que passava. Para além das insuportáveis dores que lhe percorriam o corpo, a sua temperatura interior elevar-se-ia a ponto de entrar em convulsão. Por duas ocasiões Jesus suplicara por água. E em ambas o seu desejo haveria de ser correspondido pelos soldados, que para tal saturavam uma esponja desse líquido, que lhe faziam chegar à boca com a ajuda de uma lança.
    Quando pouco faltava para as três horas da tarde, já muito agitado, Jesus dissera:
    - Está acabado! – Depois de dizer isso inclinou a sua cabeça e pareceu abandonar a luta pela vida.

    Maria ficaria inconsolável pois, agora, sabia que este era o castigo que Deus lhe havia reservado pelo pecado por si cometido naquela tarde, havia precisamente trinta e sete anos.

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