A Verdade do Evangelho
(Segundo a perspectiva de Luís Alturas)
Capítulo XV
Jerusalém, 7 de Abril do ano 30 d.C.
- Crucificai-o! Fora daqui com este e solta-nos Barrabás… – A multidão acotovelava-se, naquela exígua praça que se estendia defronte ao Pretório, gritando de forma histérica o seu nome. Haviam sido, ali, convocados, naquela sombria sexta-feira pascal, para decidirem sobre quem deveria ser poupado à crucificação. Depois de um penoso e interminável interrogatório e com o corpo Já muito castigado dos açoites infligidos, Jesus sujeitava-se, agora vestido com um velho manto real purpúreo sobre a sua túnica e uma coroa de espinhos que feria a sua fronte, nos degraus da entrada principal daquele imponente edifício, ao escrutínio daquela gente que havia sido ludibriada por um punhado de moedas com o propósito de o condenar. Naquele dia a escolha recaía entre ele e Barrabás. Ainda poucos minutos haviam passado das seis horas daquela manhã do dia de 7 de Abril quando, amarrado, Jesus fora levado pelos guardas do templo perante Pôncio Pilatos, então procurador romano do governo da Judeia, para se sujeitar a um interrogatório. Pesavam sobre ele as acusações de instigar a rebelião, não pagar os impostos a César e auto-proclamar-se o rei dos judeus. Durante essa penosa e interminável inquirição, que decorrera numa das mais inóspitas salas do Pretório, Pilatos tentara de tudo para poupar Jesus ao castigo que a multidão, presente naquela praça, exigia. Já havia muito tempo que o quinto governador da Judeia ouvira falar daquele homem e sabia que as acusações que lhe eram atribuídas não passavam de uma forma ignóbil e cobarde que os sacerdotes do templo judaico haviam encontrado para o calar definitivamente. “Jesus de Nazaré falava mais como um amigo dos romanos do que dos judeus.” - Declarara, Pilatos, numa missiva endereçada ao imperador romano, Tibério César, havia poucos dias antes.
Por altura da Páscoa os governadores romanos, por cortesia com aquele povo, faziam questão de cumprir uma tradição judaica: poupar um criminoso à pena de morte. Para tal deixavam que fosse a própria população a decidir sobre quem desejava ver amnistiado do crime cometido. Naquela manhã essa escolha incidia entre Jesus e Barrabás que, natural da cidade de Jopa, fora preso depois de matar um soldado romano, num ataque movido à cidade de Cafarnaum.
Sabendo da inocência e da popularidade de Jesus sobre as gentes da região, convencido que a multidão ali reunida fosse assim optar por o salvar da morte, Pilatos indagara aquela multidão agitada:
- Uma vez, eu ainda vos pergunto, qual desses prisioneiros devo libertar para vós, nesta época da vossa Páscoa?
- Dá-nos Barrabás! – Berraram as gentes, em uníssono, para surpresa de Pilatos que não esperava tão estranho e inesperado veredicto.
- Se eu libertar Barrabás, o assassino, o que farei com Jesus? – Indagara confuso com o que acabara de ouvir.
- Crucificai-o! Crucificai-o! – Continuaram, a gritar, também alguns daqueles que a certa altura o haviam admirado.
Atemorizado com tamanho clamor da multidão e porque não queria arriscar a um motim durante a época da Páscoa em Jerusalém não lhe restara alternativa senão ordenar a libertação de Barrabás e a crucificação de Jesus. Depois de pronunciado este seu contrariado veredicto, e detendo-se nas escadas da entrada principal do Pretório, perante a multidão, Pilatos ordenara que ali lhe trouxessem uma bacia cheia com água. Em poucos minutos o fizeram. Assim, e ao mesmo tempo que lavava o sangue proveniente dos açoites que havia infligido durante aquele interrogatório a Jesus, dissera:
- Sou inocente do sangue deste homem. Estais decididos que ele deve morrer, mas eu não encontrei nenhuma culpa nele. E, pois, cuidai vós disso. Os soldados o levarão.
Então a multidão aplaudiu e replicou:
- Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos.

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